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sábado, 21 de maio de 2011

The Highway To Hell

Boa noite, amigos! Escrevo-lhes diretamente das profundezas do inferno. Até esse momento, Lucifer já proferiu algumas belas palavras de acolhimento vestido em um elegantíssimo traje de gala e as diabetes já circulam pelo salão com os comes e bebes. "O Cão", como prefere ser chamado, disse que havia planejado um discurso de 83 dias e 17 horas, no qual falaria os nomes de todos os novos 'irmãos', um por um, mas resolveu mudar de estratégia. Afinal, abre aspas, o inferno não é um lugar tão ruim assim como alguns pregam por aí, fecha aspas. 

Agora a Orquestra Infernal Capetas de Ouro já faz a multidão bailar. Sucessos antigos, novos e até umas músicas que eu nunca tinha ouvido falar estão na setlist. Dizem que por aqui a festa é longa, e só acaba quando termina. O saxofonista, particularmente, me parece estar mesmo endiabrado. Seu rabo balança mais do que o de poodle animadinho quando o dono chega em casa. E no ritmo!

As diabetes são um charme à parte. Rodopiam pelo salão, distribuem risos e charme, tiram fotos com o público e não reclamam das investidas mais incisivas. Afinal de contas, fazer esse serviço de garçonete usando apenas uma saia rendada e um topzinho tomara-que-caia não é pra qualquer uma! A festa é open bar e o rango é 0800.

Encontro muitos amigos aqui e ali, todos felizes e satisfeitos pelas suas escolhas durante a vida. "E aí, camarada! Há quanto tempo!" é a saudação mais ouvida. Ninguém se convence que isso aqui não é o paraíso. Já há boatos pelo salão de que ali no canto, por trás do palco, fica a entrada para a verdadeira perdição. Lá, diz o boato, as diabetes trabalham sem roupa nenhuma.

Enquanto isso, no portão principal, a fila não para de crescer. Muita gente vai chegando e o som da orquestra já é ouvido de lá do lado de fora. Um telão na entrada com um link ao vivo da TV Divina, em High Definition (HD), mostra uma fila maior ainda nos portões do Céu, São Pedro sem dar conta do recado e me parece que já dá pra ver alguns princípios de confusão. Uns querem furar a fila, pois, segundo eles, os dízimos que pagaram em vida foram significativos. Uma heresia, ouso dizer. Os repórteres, impassivos, tentam entrevistar alguns convidados da festa na penthouse, mas esses estão revoltados. Em seguida, uma mesa redonda com 3 santos, 2 arcanjos, João Paulo II, Pastor Malafaia e Nossa Senhora como mediadora. Malafaia reclama que está sendo alvo de preconceito, já que seu partido tem pouca representatividade no Congresso Celestial. Eles discutem sobre tudo: o que fazer com a Terra de agora em diante, onde alojar tanta gente, as prováveis altas na Inflação Divina e também, como não poderia faltar, a tensão que se instala entre Deus e Alá. A dicotomia nos céus é grande. Aliás, dizem que Deus está na cobertura, Alá no térreo e nos primeiros andares cheio de virgens e barbudos tarados explosivos e nosso amigo, O Cão, no porão. Cara, aqui entre nós... tem pouca virgem pra muito macho e pouca cadeira ao lado de Deus pai para tanto fiel. Não temos imagens de Alá e Maomé, já que o link da Al-Jazheera andou com uns problemas ultimamente e eles resolveram cortar o sinal para cá. 

[...]
Nesse mo...mento... já estou um pouco bi-bi-cado. A festa tá é boa e tooooooooodo mundo aqui é meu amigo! Esse aqui é mermo que... mermo que... mermo que um irmão (ic) pra mim!

[...]

Eeiita... O Cão vai falar! [a orquestra silencia... tensão]
Caros amigos! É com muita honra que reforço o compromisso de que a festa não tem hora pra encerrar, e só termina quando acaba! [aplausos!]

Queria compartilhar com vocês que uma assembléia do Congresso Panteísta está sendo marcada, e logo mais eu, Alá e Deus estaremos nos reunindo para organizar as coisas.

Até lá, aproveitem a festa, bebam e comam tudo que puderem... ahn? As diabetes? Sim, podem comer as diabetes também! [aplausos ensandecidos!] Aqui tem para todo mundo!

Em um dado momento, a Orquestra de repente para novamente com um aviso do porteiro e O Cão pega o microfone e anuncia orgulhoso: 
Gente, parou! Sabe quem acabou de chegar? Nosso ilustríssimo, grande figura humana, baluarte da imbecilidade religiosa, HAROLD CAMPING!
Agora virou um verdadeiro pandemônio. A multidão abre caminho para Harold se locomover. Ele caminha acenando para todos, fazendo high fives e sendo ovacionado. A galera tá em polvorosa!

Antes dele chegar ao palco, eu o alcanço, puxo para perto e digo, numa conversa de pé-de-ouvido, digna de velhos parceiros: 

E NÃO É QUE TU TAVA CERTO?
Harold Camping



Inferno, 
22 de maio de 2011

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