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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Voltaire e o Terremoto de Lisboa de 1755

Em 1º de novembro 1755 aconteceu uma das maiores catástrofes naturais da Europa em Lisboa, Portugal. A cidade foi quase que inteiramente destruída por um terremoto que os especialistas hoje consideram ter alcançado 9 pontos na escala Richter, e em seguida por um tsunami com ondas que acredita-se terem chegado a cerca de 20m de altura. Some a isso tudo o fato de Lisboa ser uma cidade oceânica e com áreas de fácil inundação na parte baixa e também as péssimas condições de construções da época, com casebres de até 7 andares. Estimativas dão conta de 10 mil mortos nesta catástrofe.

Ruínas de Lisboa, 1755 (Wikipedia)


Destruição à parte, o que me chamou especialmente a atenção foi a obra Poème Sur Le Désastre de Lisbonne (Poema Sobre o Desastre de Lisboa), do iluminista Voltaire. Na época, como se é sabido, tudo que acontecia ou não era atribuído a Deus. Nesse contexto, nada mais natural do que imaginar o que se passava na cabeça dos lusitanos: certamente Deus os havia castigado de uma forma terrível, por sabe-se lá o quê que eles tenham feito e que mereceriam tamanho castigo. Nessa obra, Voltaire escreve e cita Epicuro, questionando a onipotência e a benevolência de Deus todo-poderoso:

Voltaire (Wikipedia)
"Ou Deus quis impedir o mal e não pode, ou pode e não quis. Ou mesmo nem quis e nem pode. Se quis e não pode, não é Deus; se pode e não quis, não é bom. Se quer e pode, qual a origem de todos os males?"








Esse questionamento é fundamental para que entendamos o princípio do Iluminismo. Não foi o terremoto e a destruição em si que despertaram os filósofos da época para o racionalismo, mas os acontecimentos estavam inseridos numa época de grandes transformações na sociedade Europeia (e por extensão, mundial): além do Iluminismo, a Revolução Industrial dava as caras na Inglaterra e trazia consigo o Capitalismo, que mudaria completamente as relações trabalhistas e sociais no mundo.



Epicuro (Wikipedia)
Ora, esse questionamento faz todo sentido. Se Deus era todo poderoso, cheio de graça e amor e pai eterno de toda a humanidade, porque matou milhares de inocentes, entre elas crianças que talvez nem conhecessem o pecado? Qual seria o sentido em tirar vidas ainda puras e com tanta coisa para se viver? Outro ponto importante é: se existe um Deus (bom), há de ter também o mal para contrabalancear. Teria sido esse terremoto uma obra do mal? Se sim, porque Deus não evitou?

Hoje em dia convivemos com terremotos quase que diariamente. Países como o Japão cultivaram o costume de estarem sempre preparados para um desastre assim, construindo prédios com molas e treinando todos os habitantes para situações de emergências. No último terremoto acontecido lá, em fevereiro, era impressionante ver a calma dos cidadãos e a certeza de que o Estado iria prover o que lhes faltasse. Com tempo, tudo se reorganizaria. Uma cratera em uma autoestrada foi recuperada em apenas 6 dias! Isso no Brasil levaria pelo menos 6 meses para ser feito. Além de conviver com tais catástrofes, hoje temos a plena consciência de que esses fenômenos não são obras da Divina ira, mas meros reflexos dos choques entre as placas tectônicas que bailam sob os oceanos num ritmo frenético que assusta a todos nós. Agora imagine explicar isso aos medievos...

Epicentro do terremoto e áreas atingidas
(Wikipedia)

Hoje chega a ser ridículo para nós imaginar que o povo da época achava que estava sendo castigado por Deus. Hoje sabemos que Deus não tem nada a ver com isso. Talvez se as construções na cidade fossem mais espalhadas nas áreas mais afastadas do litoral e menos empilhadas, como disse Voltaire, a destruição tivesse sido menor. Ou não, já que o terremoto foi realmente absurdo e foi sentido em várias regiões da própria Europa, da África e da América. 


Marquês de Pombal
De bom desse evento podemos tomar o fato que esse foi o nascimento da Sismologia. Se hoje podemos prever um terremoto ou um tsunami, ou pelo menos podemos compreendê-los um pouco, devemos essa ciência ao Marquês de Pombal, que após o sismo, fez uma detalhada pesquisa em todo o país para investigar e procurar saber mais sobre os seus efeitos. Além disso, o Marquês foi responsável também pela reconstrução da cidade de Lisboa.

Fica o questionamento: até quando a ignorância das pessoas permitirá que catástrofes continuem acontecendo nos dias de hoje? Até quando as religiões manterão seus fiéis cegos, desconectados do mundo contemporâneo em nome de dogmas de milhares de anos atrás? Muito dos problemas que a sociedade enfrenta atualmente se vale da intolerância originada há séculos entre os povos, intolerância essa enraizada cada vez mais no fanatismo religioso, pregado através de todos os meios disponíveis.

Ah, e pra encerrar, fica a dica para aquela cidadã que tuitou a maior besteira do mundo quando do terremoto/tsunami no Japão no início do ano, lembram?
O retrato da ignorância, da cegueira e do fanatismo religioso. A famosa lavagem cerebral.

Sim, anaacristtina, SEU DEUS também castigou SEU POVO com um desastre SEMELHANTE há 255 anos!

Acordemos!

8 comentários:

  1. «Muito dos problemas que a sociedade enfrenta atualmente se vale da intolerância originada há séculos entre os povos, intolerância essa enraizada cada vez mais no fanatismo religioso, pregado através de todos os meios disponíveis»

    Pode citar alguns desses problemas oriundos da religião, que condena com esta passagem?

    A violência não é exclusiva da religião, mas do ser humano e de grupos de poder, sejam eles religiosos ou não.

    Uns batem nos pais, outros roubam e matam, outros violam mulheres, outros ainda ofendem física e psicológicamente o semelhante. Existem grupos rebeldes e outros delinquentes por esse mundo fora, e posso citar exemplos do méxico, Buenos Aires, Brasil, África do Sul, Colombia, para além da criminalidade que se verifica em Portugal. Porque não referir as guerras que existem no mundo devido a interesses económicos.

    Em que actos que acabei de referir existe a religião como pano de fundo?

    Francisco

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  2. Pois é, ainda bem que esse mesmo Deus que tu desdenha está pronto para te perdoar quando tu desejares.

    Um abraço, te aguardo no céu.

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  3. Se houver céu, espero não encontrar com pessoas como você.

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    1. pra você, nõa há céu. porque vai direitinho para o lago de fogo.

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    2. Se durante toda a tua vida você nada fez, de que te vale a eternidade?

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  4. A vossa "espécie iluminista" (maçonica) negam a DEUS e a CRISTO, porque adoram e rezam àquele que disse a Eva. "comei e sereis como deuses".

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  5. É graças a esses ignorantes, o motivo pelo qual a humanidade não evolui, sempre a procura do seu criador buscando refúgio e se esquivando da culpa e rejeitando o conhecimento.

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  6. PIOR Q. AQUELES Q. OFERECEM, SÃO AQUELES Q. ACEITAM.

    ANONIMA

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