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sábado, 23 de abril de 2011

O Ritual e os rituais


Ontem assisti O Ritual (The Rite, 2011) com minha irmã, que já me enchia a paciência há algum tempo para assistir esse filme. O filme é baseado no livro homônimo do jornalista Matt Baglio, que conta suas experiências com padres exorcistas. 

Capa do livro que originou o filme

De diferente de O Exorcista (The Exorcist, 1973) apenas algumas situações, como por exemplo, a manifestação do demônio através de ligações telefônicas ou uma sala de aula high-tech no Vaticano. No geral, é mais do mesmo: exorcismo.
O filme é interessante e dá margens a várias reflexões. Se você é cristão e acredita em tudo aquilo, vai se deliciar com o final. Se você se deixa impressionar facilmente por qualquer coisa, ou desiste do filme na metade ou termina-o se benzendo. Agora se você for cético como eu vai se ater aos questionamentos que o jovem padre faz ao longo do filme.
#1: Ele entra para o seminário por falta do que fazer, falta de rumo. Isso soa familiar, não? Quantos padres você conhece que entrou para a Igreja pelos mesmos motivos? De fato, o velho ‘chamado de Deus’ parece que não tem tido um alcance tão bom. É difícil ouvir essa justificativa hoje em dia. Entrar num seminário por falta do que fazer é igual a fazer Letras por falta de opção no interior ou Administração na capital porque tem emprego fácil. O resultado é que você será um péssimo profissional. Ou entra porque gosta, porque tem tesão naquilo, ou não entra! Ser um padre que não acredita no celibato e que se esconde atrás (ou na frente) de coroinhas e outros membros do clérigo é um pecado institucional. É fazer gol contra. Imaginem um professor que tem dificuldades de fala e escrita, que não tem motivação, que passa mais tempo pagando substituto do que dando aula... você confiaria nesse professor? Muitos também entram no seminário por ser uma vida mais fácil, sem precisar arrumar emprego ou se stressar com uma família. Só que chega uma hora que não dá mais pra aguentar as consequências da escolha e, eventualmente, a gente vê padres estupradores, pedófilos ou gays. Ou tudo isso. É natural que os jovens fiquem perdidos ao final do colégio, sem saber ainda o que fazer da vida. Pior que isso, é também natural que muitos sofram uma influência pesada da família, como é o caso do padre do filme, e isso acaba por cercear um bocado as escolhas que essas pessoas passam fazer.

Michael Kovak, o quase-padre.


 #2: Ele pensa em abandonar o seminário, já perto do final, por falta de fé. Se ele já começou errado, não poderia ter terminado bem. Depois de 4 anos ainda não tem fé em nada? Pudera. Digamos que os meios educacionais da Igreja ainda sejam meio ‘ortodoxos demais’. É engraçada a cena em que ele está escrevendo o email (!) no qual se ‘demite’ do cargo de padre antes mesmo de o assumir: ele está deitado na cama escrevendo no notebook e num outro cômodo, dois outros seminaristas jogam algum jogo de guerra no videogame. Tragicômico. Na cena seguinte, ele se encontra com um de seus professores/superiores, que termina o convencendo de desistir da ideia de abandonar a Igreja e o envia para o Vaticano para poder estudar e se tornar um exorcista. Diga-se de passagem que ele é convencido facilmente, porque se abandonasse o seminário àquela altura, teria uma pequena e simbólica dívida com a Igreja no valor de $100.000,00. Quem não viraria exorcista? Até eu!
#3: Chegando no Vaticano, a primeira coisa que ele faz é se decepcionar porque no seu quarto não tem TV a cabo. Pense num desprendimento das coisas materiais desse padre! Em seguida, ele chega atrasado para a aula. Pense num comprometimento! Depois disso, a jornalista interpretada por Alice Braga (que na verdade é o papel do autor do livro, já que foi ele que teve oportunidade de assistir a essas aulas) dá em cima dele. Sodomia total.
Depois disso, a parte interessante começa. O jovem quase-padre faz 2 questionamentos interessantíssimos. O primeiro deles é quando seu professor está falando sobre possessões e diz que o sinal mais fácil de identificar numa possessão é a reação negativa a objetos santos, como crucifixos ou água benta. Em seguida, uma aluna pergunta como diferenciar uma ilusão de possessão de uma possessão real, no que o professor rebate dizendo que é tarefa do exorcista diferenciar um do outro, dando o exemplo dos paranoicos esquizofrênicos que não tem ciência de que estão alucinando. Então acontece o seguinte diálogo entre o quase-padre e o professor: 


QP: Os que estão possuídos também não têm ciência de que estão possuídos.

P: Mas eles apresentam períodos de lucidez.

QP: Os esquizofrênicos também.

P: Como eles poderiam então apresentar habilidades somente em um dado momento? Um alemão nessa fita fala russo enquanto está possuído.

QP: Como um menino de uma aldeia na África pode ser encontrado a 740km de casa alegando ter sido abduzido por alienígenas? É igualmente improvável. Mas estamos chamando o menino de louco, e não seu alemão, só porque ele acredita em alienígenas e não em Deus.

Professor dá as costas e diz: Não estamos aqui para analisar ciência ou religião.
Como simples conhecimentos científicos podem derrubar argumentos religiosos embasados! 
Em seguida, outro comentário inteligentíssimo:
P: Michael, você acredita em pecado?

M: Sim, mas não acredito que seja o Diabo que nos faça cometê-lo.

P: Aquele que comete pecado pertence ao Diabo.

M: Então todos nós pertencemos ao Diabo, certo? E se somos todos do Diabo, como combate-lo?

Professor dá um risinho e muda de assunto.
Pecado original, Adão e Eva, já nascer no pecado... De acordo com o raciocínio lógico do jovem quase-padre, nós somos em primeiro lugar, filhos de Satanás, e ao decorrer da vida, dependendo de batismo, comunhão e crisma é que nos tornamos filhos de Deus. Isso se a gente não pecar no meio do caminho. DEAL WITH IT. Dê conta. Esse tipo de coisa não entra na minha cabeça. Como assim a gente nasce e já nasce errado? Nossos pais nos fazem e a culpa é nossa? Eis aí mais um instrumento de dominação utilizado pela SICAR ao longo dos tempos: fazer filho só depois de casado, e tanto dentro ou fora do casamento, o filho já nascia pecador, precisando da salvação divina desde o momento em que saísse da barriga da mãe. 

Na sequência, o jovem quase-padre encontra com um exorcista profissional, Padre Lucas, interpretado brilhantemente por Anthony Hopkins, e vê que, segundo o livro/filme, possessões demoníacas existem de verdade. A partir desse ponto, cada um tire a conclusão que quiser. Meu objetivo com esse post não é debater se existe ou não, até porque na minha cabeça, se não existe o Bem Supremo, também não existe o Mau Supremo - é questão de lógica. Até porque a própria ideia do surgimento do Diabo não é um reflexo muito bom da ideia do Deus benevolente. Mas isso é assunto pra outro post. 

Assistam o filme e façam seus comentários, ou então comentem sobre os trechos que citei aqui desarmados de qualquer preconceito.

Light it up!

4 comentários:

  1. Já tava louca pra assistir esse filme, só aguçou mais minha curiosidade. Debater religião é sempre complicado, nesse aspecto então, nem se fala. Gostei do modo com que expressou os pontos de vista . Quando assistir o filme, vou ver em qual 'classificação' me enquadro .

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  2. É complicado, sim, mas só quando se toma posições radicais. Fica difícil para duas pessoas conversarem ou debaterem se uma não entende a outra! Vê o filme e passa de novo!

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  3. Confesso que fiquei loucaaa pra ver esse filme! Mas tenho medo do Demônio! kkkkkkk Lembro que quando ví o exorcista fiquei muitos dias dormindo com meu irmão! kkkkkkkk

    é Flávio, como sempre vc notou e comentou o que poucos fazem e comentam... A ciência sempre entra em contestação com a religião e seu único argumento é a "fé".
    Em um encontro (na minha época de beatisse) eu perguntei a um padre: - o que prova que tudo que tem na bíblia é verdade?
    RESPOSTA: - a fé!
    Me calei!

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  4. Assim fica difícil, hehehehe...

    Thamiris, assiste o filme e volta por aqui pra deixar tua opinião. O filme não é tão pesado como o Exorcista, não. Nem de longe!

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